Terça-feira, Maio 05, 2009
Dá teu jeito!
Foi dia desses, sem ter nada na cabeça pra escrever, que eu arrumei um assunto sobre o qual eu podia enrolar; foi mais ou menos como uma das redações que eu fazia no colégio – sempre soube que me serviriam.
Andei pensando e concluí que talvez eu pudesse escrever justamente sobre não ter assunto pra escrever. Não é brincadeira, nem nada; é uma posição muito séria que eu tenho, e que já explico. Olha bem: pra mim, o jeito em que vem embrulhado o conteúdo é quase tão importante quanto ele - e eu não tô falando (só) de mulheres! Sô capaz de achar, inclusive, que um jeito bem feito às vezes tem seu valor até sem conteúdo. E agora a justifico a idéia, e justifico logo, antes que me critiquem, com o crédito inquestionável de quem me fez pensar nela: ZezédiCamargoeLuciano. Unamimidade na filosofia nacional, ele uma vez disse que, se fosse Chico Buarque quem cantasse as letras escritas pela dupla, todo o mundo acharia poesia; mas, como – espante-se! - não é o Chico quem as canta, alguns o taxam de brega. A idéia que tinham da letra dependia de como ela era apresentada. Pensei, pensei e não pude discordar. Na verdade acabei sendo bem simpático a idéia, e acabei por testá-la; por isso vim contar.
O primeiro teste da hipótese foi positivo: fui simpático a idéia mas não tive interesse de ouvir as letras com mais calma, isento de preconceitos, pra ver se prestavam - afinal, ele canta d'um jeito brega pra cacete! Ele não poderia ter acertado melhor. Era agora quase uma teoria. Continuei pensando, testando além das mulheres, e vi que gosto de muitas coisas por uma estética fundamental – pelo menos pra mim, e que não sei explicar -, sem elas precisarem ter razão de ser, ou conteúdo pra fazer pensar.
Achei fantástico, uma vez, quando li que Matisse, ao ser questionado sobre o porquê d'ele ter pintado um quadro com uma mulher verde, respondeu sem hesitar: 'Não é uma mulher; é um quadro!' - ou algo mais ou menos assim, já que a empolgação foi dada por mim. Mas, quando fui conversar sobre isso com uns amigos, cismaram até o fim que as coisas têm de ter um motivo: 'O que o verde representa? O que isso quer dizer?'. Pra mim, sei lá. Pode querer dizer qualquer coisa, ou nada, mas acima de tudo foi o jeito que autor julgou interessante, e que intessante parece a mim. Não precisa ter porquê, não. É bonito! É como uma música cuja a letra a gente não entende, mas gosta mesmo assim. Qual o problema? Eu julgo muito importantes as letras, e presto atenção em quase todas – porque eu particularmente me interesso se tô dançando loucamente enquanto me chamam de filho-da-puta ou algo assim – e acho umas muito relevantes até politicamente. Mas, se eu sei que o cara tá falando nadacomnada e a música ainda me cativa, não posso gostar dela ainda assim? Há melodias simplesmente incríveis por si só, e acabou o assunto.
Na literatura, também, acontece isso comigo o tempo todo. Eu simplesmente gosto muito da forma com que as coisas são escritas. Concordo muito com Guimarães Rosa, que parece ter dito que 'cada palavra é uma poesia'. Isso é muito verdade. Há mil formas de se escrever uma mesma coisa, mas uma me parece muito melhor que a outra, sem dúvida. Eu posso e tento – e já disse isso aqui antes – ver beleza em algo que foi escrito ainda que não concorde com a idéia. Posso achar tudo uma besteira, mas o faço várias vezes achando que aquilo foi muito bem escrito. Eu, por aqui, me preocupo com a forma com que escrevo - e eu sei que ao leitor ingrato não parece, mas é verdade! Penso no que falo, mas também no como vou falar. Não fico, não posso, nem quero ficar por horas lapidando algo, como um parnasiano, mas, pra mim, como o texto flui influi muito no prazer que se tem ao lê-lo.
Acho que bem escrever pouco tem a ver com o assunto sobre o que se escreve ou com os argumentos que se usa. Acho inclusive engraçado imaginar uma corretora de redação que só dá notas boas a quem a convence, e vai voltando pra alterar as notas daqueles que anteriormente a tinham convencido. Grande besteira. Pra mim, quase basta só o jeito, pra que se escreva bem. A gente não precisa convencer ninguém. Mas talvez se eu escrevesse de outro jeito, assim feito um Machado de Assis, tudo isso fizesse algum sentido, e eu conseguisse te convencer também.
Rodolpho.
@ 7:07 PM |
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Terça-feira, Março 10, 2009
Mermão!
Se ainda não disse aqui – e acho que não -, digo pela primeira vez que tenho um irmão de oito anos e muito do esperto. Uma vez ele, ouvindo “Malandragem”, olhou pra mim e começou o diálogo:
_Pô, que mentira...
_O que foi, João?
_A música aí... disse que era poeta, mas não sabia amar, que é uma coisa tão fácil. Mó mentira, né?
Eu sorri. Tentei explicar pra ele alguma coisa do que eu achava da letra, me achando o verdadeiro 'malandro' da situação. Só depois, sem perguntar, acabei por descobri que ele, já naquela época, gostava de uma menina do colégio. Amar pra ele, então, parecia fácil. Foi a primeira vez que ele me pregou uma peça.
Da última vez que viajei pra visitar minha família, claro que o vi de novo. Dessa vez, tentei aproveitar o pouco tempo para ensinar a ele – que andava meio gordinho – como era fácil andar de bicicleta. Começamos, com a presença de um amigo, e ele não conseguia. Eu tentava ensinar, dizia, mostrava, mas não dava jeito. O amigo dele, então, resolveu intervir:
_João, faz um esforço, cara. É só pedalar... Seu irmão já tá ficando meio nervoso.
Ele tinha razão: eu 'tava. 'Tava até João responder:
_Pô, se ele ficar nervoso por causa disso...
Foi a segunda vez que ele me pregou uma peça. Só faltou me dizer que era mó mentira alguém conseguir ensiná-lo a matemática, a jogar xadrez, a andar de bicicleta, mas ficar nervoso por uma besteira daquela. “Eu ando de bicicleta, mas sô um mané nervoso...”. A gente cresce e aprende a ser besta. Foi assim que eu aprendi.
Aquele dia era meu aniversário e tal. Foi, com certeza, um ótimo presente - e presente-surpresa. No dia seguinte ele acabou aprendendo, rápido como de costume, com um professor que já não se irritava como antes. E no dia de hoje eu acho que os 80 anos que ainda vô viver vão ser pouco pra tudo que eu ainda quero e preciso aprender.
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Há dois meses e alguma coisa é que fiz essa viagem e desde então tenho guardado, escrito na cabeça, o que escrevi agora. É um dos meus (maus) hábitos escrever e não pôr no papel; hábito muito ruim. Mas antes eu ainda conseguia, pelo menos, registrar aqui, no computador. O problema é que ultimamente não tenho feito nem isso – e quem lê isso aqui sabe. Então, agora que consegui, aproveitei o embalo e escrevi d'uma vez. Foi rápido, mas saiu. E eu sô coruja, sim.
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Extra! Extra! Aproveite a oportunidade e junte-se ao movimento dos semoportuguesdesempre. Se tu acha que essa reforma empobrece a língua e é meio inútil, porque a mudança da língua mostra a diversidade das culturas e é inevitável até de uma cidade pra outra, aqui é teu lugar! Aqui o quilombo ainda é d'idéia, com acento e tudo.
Gringo.
@ 10:31 PM |
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Terça-feira, Novembro 04, 2008
..:: Gosto.
Uma vez eu achei que num tinha gostado d'um filme porque ele era, assim, meio panfletário. Dia desses eu descobri que não tinha gostado porque eu não concordava era com a idéia do panfleto. Talvez. Se fosse das minhas, eu ia achar é massa. Muito fácil. Difícil é conseguir ver o que é bonito, o que é inteligente, coisa e tal, quando o gosto avaliado é diferente do da gente. Difícil mermo, ou pelo menos eu acho. Tem um amigo que tem muita vontade política, em que eu acredito, mas com idéias completamente diferentes das minhas. Será que eu votaria nele? Num sei. Eu fico tentanto reconhecer no jeito diferente um mesmo objetivo, só que por um outro caminho. Ainda não consegui. Quem sabe o bom ou ruim não tá só no objetivo? Mas não consigo. Quando eu conseguir, vô pro céu. É meu sonho. Feito é meu sonho também chegar e elogiar o gosto d'um maluco que goste do sertanejo de que eu não goste – porque de alguns eu gosto! os violeiros são legais – e depois conseguir sair por aí, assoviando e orgulhoso, de consciência limpa. Já pensou? 'Cara, eu odeio esse negócio. Mas vai nessa, que teu gosto é do carai!' Vai doer... mas eu consigo. Pelo menos eu quero. Né possível que só tenha bom gosto quem concorda comigo. Né possível. Parece que, quando dizemos 'tu tem bom gosto', poderíamos também dizer 'parabéns por ser incrível e concordar comigo!'. Não parece? Né possível.
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Eu sempre assinei com meu apelido aqui. Daí vô continuar a tradição e, agora, vô assinar como Rodolpho. É que eu descobri dia desses que Gringo virou meu nome. E que Rodolpho é o apelido que minha mãe me deu quando eu nasci. Que cara de Rodolpho eu tinha, afinal.
Rodolpho.
@ 11:00 PM |
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Sexta-feira, Outubro 03, 2008
..:: Buracos.
Eu ando meio preocupado. Era pra eu 'tar pensando nas provas que tão vindo e tal, feito um bom estudante, mas não é disso que tô falando. Eu ando preocupado é com o que eu tenho aprendido pra fazer essas tais provas que andam me passando. Durante minha vida de estudante eu sempre ouvi falar de átomos, elétrons, coisa e tal. Mas há algo de errado quando você começa a ouvir falar que a falta de um elétron – ou seja, um buraco! - tem massa, carga e se move, e ainda acha isso normal. Aí tu começa a ver que tem alguma coisa estranha no ar. E que esse ar também podia ser o vácuo, dum jeito assim, bem natural. O negócio é tão preocupante que o leitor já deve 'tar assustado. Acontece que o assustador mermo ainda tá por vir, imagine só.
Imagine você estudar engenharia e descobrir que a máquina mais importante na tua profissão é uma que não existe. Na profissão não tem chave de fenda, régua e coisa nenhuma. Te enganaram quando explicaram o que era engenharia, mané. Agora imagina ter sido enganado assim, e ainda gostar. Preocupante. É um tal de pensar no abstrato, abrir a cabeça, que dá medo. E o pior é que não dá medo pelos motivos que o povo diz. Dizem que isso é coisa de maluco, coisa e tal, e mal sabem que não é com isso que eu tô preocupado. O maior susto dessa coisa toda é tu, depois de muito tempo, perceber que aprender esses negócios pode ter um sério efeito colateral.
Com o passar dos períodos eu fui descobrindo que abrir a cabeça é bom e pá, mas só um pouco, que é pra não acabar abrindo outras coisas. É uma certa agonia descobrir que o herói da computação e vários grandes matemáticos gostavam era de meninos. Deviam ter me contado antes. Com isso eu não queria ser enganado. Não pode ser tanta coincidência assim; não pode. Por isso eu comecei a pensar que os professores deveriam avisar assim, antes de ensinar alguma coisa: “Olha, isso aqui, por algum motivo, pode fazer você repensar suas opções sexuais. Agora vamos à demonstração.” Seria mais justo. Fecha o olho! Fecha o olho! e tava tudo certo. Eu tenho o direito, ora.
O povo vive dizendo que não, que não tem nada de errado em ser gay, e disso eu não discordo e tal. Na verdade, com o buraco dos outros eu sô um grandessíssimo liberal. Acontece que com o meu eu sô careta, ué. Qual é o problema? Ser liberal com o buraco dos outros é fácil, não dói e é um grande ato de tolerância, que tu devia experimentar. Disso eu não poderia discordar. Sô um grande fã dos ideais liberais e acho muito bom aprender com os grandes do Iluminismo. Não custa nada tentar. Eu só não vejo nada de errado em não querer iluminar o meu buraco. Prefiro que ele fique lá, na paz da escuridão, com seu grande amigo saco. De todos os mistérios e coisas que eu ainda tenho que entender e inventar, só não me incomodo que o meu buraco seja o único mistério que fique por desvendar. O mundo já tá cheio de outros buracos, negros e brancos, pra quem quiser morrer feliz da vida tentando explicar.
Gringo.
@ 8:02 PM |
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Segunda-feira, Agosto 25, 2008
..:: Cinqüenta.
Já faz mais d'uns três anos que eu joguei minha garrafa por aí e esperei que alguém por azar viesse a ler este blog. Comecei com alguma vergonha e frescura e não tinha a cara-de-pau que tenho hoje, que me faz escrever um post tão curto e besta, só pra dizer que esta é a quinquagésima vez que escrevo por aqui – pode contar! Não tinha mermo. Mas agora sô corajoso. Acabei vindo escrever, já que num me agüentava de vontade de terminar essa notícia, pra poder ir logo comemorar comendo a coxa de galinha desacompanhada que acabei de fazer. Bora nessa?
Gringo.
@ 9:19 PM |
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Segunda-feira, Agosto 11, 2008
..:: Pai daqui, pai do céu, pai noel.
Visitei meu pai faz uns dias, a gente conversou umas coisas e ele acabou achando graça d'uns trecos que eu falei. Ontem foi dia dos pais e o que tá aí embaixo não é sobre ele, não é nada assim demais, mas foi do que ele achou graça. É pra ele, então, que de vez em quando passa por aqui também.
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Dizem que não se discute religião, e eu mermo já num faço isso. Só escrevo. Daí tu faz tua parte, que é só ler aí bem quietinho, e fica tudo certo. Afinal religião não se discute. Dizem só que se acredita, e eu acredito nisso, porque também quero que acreditem quando digo que eu não acredito em muita coisa. Sempre digo isso. Isso só não quer dizer que na minha vida não tenha religião, não. Na verdade tem até bastante, porque dentre essas coisas que eu leio por aí e que num me valem nem mais um décimo na prova, a religião é uma delas. Eu gosto tanto que parece mentira. Quando eu digo que não tenho religião, é porque num acredito em tudo de nenhuma delas, mas principalmente porque não sô bom o suficiente pra me dizer de nenhuma delas. Não acredito em muita coisa e, do muito em que acredito, não consigo seguir nem um pouco ali, à risca. Por isso gosto de quem consegue. É até bonito ver quem – pelo menos foi o que me contaram – conseguiu pôr em prática princípios tão benéficos. Jesus por exemplo me parece um cara bem legal. Parece que eu não gosto de religião mas eu tenho certeza que gostaria de Jesus. Gostaria dele, de Buda e do povo todo. Do que eu num gosto é o fingimento, quando a doutrina parece ser esquecida. Aí num dá. Sem doutrina, como se dizer da religião? Tem muita gente aí que, de Bíblia de baixo do braço, faz coisa pior que esses meus textos. O povo diz que acredita, que é religioso, mas se tu fala em fidelidade, qualquer coisa parecida, nêgo te acha é otário. E olha que isso é só um mandamento. Imagina se fossem os dez! Acho que é por isso é que Jesus num volta. Porque, se ele voltar, matam ele de novo. Se tem uma coisa que eu acredito é que ele - ou o pai dele, sei lá - é onisciente. Pra ficar tanto tempo pra voltar, só sendo muito esperto e sabendo de tudo. Eu imagino um cara falando em simplicidade, amor e desapego às coisas materiais aqui no bairro onde eu moro ou na cidade em que nasci. Coitado! Mas, enfim, chega de fazê-lo sofrer mais uma vez. Afinal é com tudo quanto é religião que isso acontece, até na minha falta dela. O lado da doutrina, do ascetismo e prática moral mermo acho que não existe muito. O importante mermo é acreditar em alguma coisa. Ou quem sabe acreditar mermo é em alguém, que fica mais fácil conversar e pedir as coisas. Daí quando todo o mundo precisa de algo, acaba achando que tem alguém maior pra pedir o que precisa, inclusive eu. Acaba que Deus parece assim mais o Papai do Noel dos adultos. E nós, já muito crescidos, só não acreditamos mais nessa bobeira de escrever cartinha e se comportar bem o ano todo. Pra quê? Isso, sim, é que não se discute.
Gringo.
@ 11:12 PM |
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Terça-feira, Agosto 05, 2008
..:: Faze o que tu queres.
Muito do pouco que eu sei me fez achar que, sempre que dá, vem logo alguém pra meter a mão na tua liberdade e ganhar um pouco mais pra si. É pior do que dinheiro. Essas coisas foram me fazendo meio que em luta constante pra ser o mais livre possível e ter agonia a cada tentativa que eu veja de se fazer o contrário. Seja me livrando das porcarias que comprei ou tentando abdicar de certos vícios, o negócio sempre foi tentar ser livre. Poder ser comunista, liberal ou reacionário e dizer isso pra todo o mundo sem ter de tomar choque na língua, não sei por quê, me faz sentir bem. E quando penso em algo mais simples vejo que caminhar na praia à noite com o cabelo engrenhado faz também. Resisitir às propagandas do que eu não preciso, enxegar parcialidade na tevê e negar o refrigerante naquelas perguntas convincentes também é algo assim. Qualquer coisa que se faça por escolha própria é a maior forma de liberdade pra mim. Volto lá e digo que, ei, agora eu quero aquele refrigerante. Quero ser enganado pelo horário eleitoral gratuito e quero fazê-lo tomando Coca-Cola! Eu posso. Liberdade mermo é não se privar de desejos. Né mermo? Ou não é? Vai ver liberdade não é usar calças largas e procurar coisas simples. Vai ver é fazer todo o contrário. Talvez em ser livre fazendo força tenha menos liberdade que em ser preso, de calças justas, e gostar disso. E quem sabe o viciado e o controlado, o enganado e o iludido sejam escravos por escolha, mais felizes que eu e você juntos.
“Se eu quero e você quer
Tomar banho de chapéu
Ou esperar Papai Noel
Ou discutir Carlos Gardel
Então vá
Faze o que tu queres
Pois é tudo
Da lei, da lei”
Gringo.
@ 11:41 PM |
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Quinta-feira, Julho 03, 2008
'Fêssora, acho que terminei.
Mas já?
É, eu gosto do tema. Foi tranquilo escrever. Né não, Rodrigo?
Mas foi muito rápido. Assim você acaba errando. Vá pensar mais um pouco, revisar o texto.
Precisa não, 'fêssora...
Hm, deixe-me ver.
É... dá aí a sugestão da senhora, que eu corrijo.
Hm... 'Tá vendo? Escrever tão rápido assim... só podia dar nisso. Seu texto está com alguns erros...
Ah, é, acho que esqueci do acento. Urubu tem acento?
Não é isso, menino. Isso é um texto dissertativo. A gente não deve usar 'eu acho', coisas desse tipo.
Ahn?
Não pode ser assim, tão pessoal.
Mas eu achei que era pra dizer o que eu achava. E olha que o Flamengo merecia pior...
Olha, o tema é futebol, que é pra estimular vocês, mas é um texto sério. Você tem que me convencer, passar credibilidade.
Ah...
Você deve escrever na terceira pessoa, que aí não soa pessoal, soa mais verdadeiro.
Como assim terceira pessoa?
Para quem está lendo, não pode parecer sua opinião, entendeu?
Mas aí eu faço o quê? Tipo, pergunto a alguém e escrevo? O Rodrigo num sabe de nada... Minha mãe nem entende de futebol... mas eu posso perguntar a ela assim mermo.
Não, menino... Só tem que passar credibilidade!
É mermo... nada a ver perguntar a minha mãe. Meu pai, sim! Meu pai lê bastante...Ele deve ser uma boa terceira pessoa. Ele deve ter esse negócio aí que a senhora 'tá falando. Acho que a senhora vai gostar.
Não é para perguntar a ninguém! Você tem que escrever suas idéias, mas parecendo que não foi bem você quem escreveu.
Ahh, sim. Isso é fácil, 'fessora. Era só dizer antes. Esse negócio de fingir é mole. Mentir pra ganhar cre.. credri.. credibilidade...Mas, ei! a senhora 'tá me falando a verdade, né?
Não! Digo... Não é isso! Não é mentir... Olha, deixa isso pra lá. Além de tudo, você tem que tomar mais cuidado. Seu texto está muito adjetivado.
Como assim... adjetivado? Tipo igual a senhora tinha dito, que adjetivo tinha a ver com qualidade? Até que enfim a senhora gostou de alguma coisa, hein...
Ai, meu Deus... Você está falando muito que fulano é isso, que é aquilo. Criticando com palavras fortes demais, quase xingando.
Mas professora... é o Flamengo!
Mesmo assim.
Ih, era melhor a senhora ter pedido pra falar de outra coisa então... E, olha só, a terceira pessoa sua m..., ô, minha mãe, meu pai, sei lá, já não 'tá achando graça nesse negócio de escrever, num tá entendendo mais é nada. E é segredo, mas pra senhora eu digo: a terceira pessoa sô eu!
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Escrevi isso aí pensando nos outdoors que vejo pelo Recife. Vários e vários cursos intensivos de Redação, que vão realizar bem a tarefa de criar trauma de escrita nos alunos e, ainda assim, encher o bolso de dinheiro.
Gringo.
@ 9:49 PM |
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Segunda-feira, Maio 19, 2008
..:: Priorize as prioridades.
Qualquer dia desses por aí uma coisa qualquer me fez pensar em prioridades. 'Tava indo à parada perder o ônibus pra faculdade – uma dessas sérias prioridades-, quando o vi passar e não corri pra pegar. Fiquei sem jeito de repetir minhas corridas em público, porque já aprendi que evitar esse tipo de coisa, pra gente adulta, é uma prioridade maior que estudar na hora certa. Se você corre, te olham; e você só quer ser olhado mermo se o motivo for aquela roupa brilhante. Então você fica parado. Foi o que eu aprendi. Agora não faço o que fazia. Antes não era bem assim. Se eu 'tivesse no shopping e quisesse cagar, eu corria era na hora. Cagar em casa era mais importante. Aquilo, sim, era prioridade. Agora o esquema é outro. Se tiver alguém doente, precisando da gente, é capaz d'a gente chegar atrasado e num ajudar o coitado. Correr não pode. A gente cresce e aprende a ser besta. Foi assim que eu aprendi.
Hoje eu tô por aí, com outras coisas em mente que não cagar em paz na minha casa. O cara vai crescendo e vai disputando com os amigos vagas além do time de futebol de terra. Vai crescendo e vendo gente pra quem, aliás, jogar bola em futebol de terra ou qualquer coisa desse tipo já não é prioridade há muito tempo. Vai conhecendo incríveis pessoas pra quem dormir (!) não é laaá uma prioridade também. Vê que o princípio do dinheiro é às vezes maior que aqueles nossos. E conhece o corre-corre em que cada um escolhe suas prioridades às vezes sem comer, sem dormir e, é claro!, sem correr. Mas também escolhe as próprias e vê que sempre dá tempo de desenhar, tocar e escrever. E o assunto o cara escolhe no tempo que ganha do ônibus que costuma perder.
Gringo.
@ 1:27 AM |
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Quinta-feira, Abril 10, 2008
..:: Alguém ajuda?
Há algum tempo eu quis ajudar alguém e desisti. Não foi por maldade. Sei que falar isso logo agora, que 'tamos todos – tamos? - ajudando o Tibete a se libertar, pode fazer parecer que eu sou um ditador chinês; mas não é isso. Eu juro que acho que não é. É que, assim..., ajudar alguém pode ser complicado. Podem até dizer que ajudar é bom - e quando ajudo, às vezes, funciona; então desconfio que seja verdade. Acontece que nem sempre é assim - e aí vejo que é verdade mais ou menos, verdade de vez em quando, igualzin' a todas as verdades. Foi por isso – e não por ser um ditador chinês - que dia desses deixei de dar minha sugestão pra tentar ajudar um amigo meu. Alguns dias antes d'ele apresentar sua tese, eu li alguns de seus textos e não dei minha opinião sincera. Achei que, em vez de ajudar, poderia deixá-lo mais inseguro pra apresentação e tudo o mais. Fiquei quieto. Passados alguns dias lá 'tava eu assistindo a apresentação, torcendo e ouvindo alguém da banca criticar a estruturação do texto do jeito que eu teria feito. Fiquei puto. Perdi uma ótima oportunidade de não ficar calado. Não ajudei e poderia ter ajudado. Fa-z-o-quê? Isso, afinal, é escroto demais. Num dá pra saber no que vai dar. É como Fátima, que, querendo ajudar, sempre acerta e põe tudo aqui em casa num lugar perfeito. Perfeito pr'eu nunca mais achar. Vô fa-z-o-quê, cara? É complicado pra carai.
Quando a gente tá realmente convencido de que pode ajudar, aí a coisa ainda piora. Sabe aquela estória de que todo brasileiro é médico e técnico de futebol? A gente acha que sabe o que é bom pra doença, o que é bom pro time... Uma maravilha. Ninguém sabe o que é bom pra própria vida, mas pra saber de outras coisas é num instante. Alguns de nós têm profissão de palpiteiro e outros só são palpiteiros de profissão - os vizinhos que o digam. Se é pra dizer o que alguém não pode jogar, ler, ou até comer(!), sempre tem alguém inteligente. Ou, em outros casos, há também um juiz esperto que sabe o que faz – e não pára por aí. Formamos muitos, somos todos palpiteiros, somando-se os individuais. E, como somos todos palpiteiros e todos são a maioria, 'tá nas nossas mãos o poder de ajudar a impor nossos conhecimentos – de medicina, de futebol, de religião – naquela velha minoria - que ainda reclama, ingrata! Só queremos ajudar. São decisões democráticas; eles têm de aceitar. Afinal, nós sabemos o que é bom pra eles - a maioria sempre soube! sempre tomou as maiores decisões. Foi a maioria que gritou pela crucificação de Jesus e é também a maioria que, hoje, tenta – tenta? - seguir seus passos como a verdadeira das religiões. Sábias decisões. Teve também aquela maioria lá, não lembra?, que apoiou as medidas de genocídio d'um tal bigodudo. E ainda aquela outra que, pra ajudar os iraquianos, elegeu um conhecido orelhudo. Entrar em suas casas e ensinar a criar seus filhos, todas ótimas ajudas vindas de quem sabe o que é melhor pra todos sem nem perguntar. Porque, ainda que não tenhamos nada com o assunto, impor nossa ajuda parece ser o caminho e talvez nunca consigamos parar. Seja aqui, ali, ou pra lá de Bagdá.
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Se a maioria achasse bom se apossar de tudo que é da minoria, seria válido? Se ela proibisse alguém de ter tal religião, como já foi feito, seria bom?
Escolher pela maioria é realmente melhor que somente por alguns. Mas será que a escolha feita, em alguns temas, não pode ser de deixar que cada um escolha por si? Será que num é possível deixar alguém usar burca, guardar o detergente do lado direito e a roupa pendurada no chão, viver na matrix, usar coleira ou ser judeu, se assim ele quiser, ainda que não se goste? Acho que é, sim. Mas a gente quer ajudar. Porque a gente sabe o que é bom pro bem comum.
Gringo.
@ 12:39 AM |
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